III
Sobre a despedida no hotel em Tirana passaram quarenta dias. O tempo mede-se agora em ausência, em exacerbada distância; em agridoce melancolia.
Todos os dias me recordas quanto falta para nos reencontrarmos e a cada dia um novo espinho rasga-me a garganta. Perguntas-me se tenho saudades tuas e eu pergunto-me se ainda quero que venhas.
Chegas-me em pedaços de papel escritos à mão, em fotografias desfocadas de lugares longínquos, em imagens de fogo que me mantêm acordada nas noites mais densas. Chegas-me em suspiros cravados na carne e no cansaço de esperar.
Para lá de ti, a rotina instalou-se, pegajosa. Sobre ela, a tua memória desfaz-se, rarefeita, no tic-tac do relógio de pulso.
Já não sei o teu cheiro.
Já não sei se a tua voz era grave ou apenas rouca.
Já não sei o peso exacto do teu corpo sobre o meu.
Escreves-me e dizes que queres casar comigo,
benimle evlen, sevgilim.
Digo que sim, porque ao amor não se responde com prudência; porque ao amor não se diz que não. Porque talvez amar seja isto: levar a chama ao limiar do incêndio e esperar que não queime.
Chegas daqui a dez dias.
E de ti, agora, guardo apenas o nome.