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Epílogo

Às cartas escritas em silêncio adicionei fotografias de Himarë, da viagem pelos mares a Ocidente, dos dias em Lisboa. Coloquei-as num envelope de papel pardo, o teu nome e o meu, e enviei-tas como quem encerra um capítulo: a fechar a prosa do passado. 

Esqueci-te, como se esquecem os amores passageiros, como se esquecem as feridas que se pensava cicatriz e que não foram, afinal, mais do que arranhão sobre a pele. Soube que perguntavas por mim, entre sombras, de cada vez que me sabias nos lugares que sonhavas visitar, a caminhar nos tórridos desertos dos quais imaginavas apenas as dunas.

Anos mais tarde, encontrámo-nos em Berlim. Era Verão, Gilberto Gil tocava ao vivo, os dias demasiado leves para a urgência da tua presença. Surgiste com lágrimas, desculpas, arrependimento. As tuas mãos procuraram as minhas, a tua voz fez-se doce. A indiferença que te tinha transformou-se em momentânea ternura, em breve compaixão. Entendi como tudo em ti era esforço, como te cansavam os teus próprios gestos, a profundidade das palavras, o sentir. Entendi como caminhavas num fio estreito entre o que desejavas ser e o medo de não conseguires.

As tuas mãos agarraram o meu rosto, silenciaste as palavras: 

Askim

Olhaste-me imitando a profundidade com que nos olhámos anos antes – fabricando uma intimidade há muito extinta – na esperança de que nos revisse em ti. 

No reflexo do teu olhar encontrei apenas o meu;

E essa foi a última vez que te vi.