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A noite cai e com ela aquela dor antiga de medo em mim sepultado. Tomo um banho de água fria para justificar o tremor do corpo, visto-me, pego nas chaves do carro e saio à rua. São 1h35m e o mar ruge do meu lado esquerdo. À minha frente, o negro alcatrão da estrada surge ténue por entre o branco dos faróis. Estou a andar há 2 horas, sem qualquer destino, a estrada deserta, a música demasiado alta ferindo os ouvidos. Grito, choro, rio, fico em silêncio, contorno o limiar da loucura que me acena e me chama para junto de si. As horas passam, os quilómetros sucedem-se e nada se altera em mim. 
O depósito acusa o pouco combustível, desço a serra, a estrada sempre vazia, a escuridão deserta da noite.
Algures encontro uma bomba, 10€ de gasóleo, por favor, o rapaz olha-me é só o gasóleo?, digo que sim, ele insiste, de certeza que é só isso que queres daqui?, repito a resposta, guardo o troco, encho o depósito e retomo o caminho para lugar nenhum. 
No negro da noite surgem os primeiros feixes de luz, os pássaros da madrugada cantam, o alcatrão fica mais suave, o peito estagna dormente. Eventualmente chego a casa, abro uma garrafa de vinho, bebo e fumo à janela. A cabeça pesa, o corpo lateja, arrasto-me até à cama. Preparo-me para dormir e para esquecer.