A
inconstância púrpura da madrugada deposita-se no lado de fora da janela. Dentro
da casa a luz vermelha, a cama aberta, a pele de mármore latejando. Renunciámos
às palavras por nos reconhecermos no silêncio: entras, fechas a porta, pousas
as tuas coisas sobre a cadeira; olhas-me; espero-te; sorris; desejo-te. Sobre o
teu corpo ancorei um dia o meu e juntos nos fizemos oceano, gemido, sal e suor,
carne, sangue e seiva, êxtase e abismo. Disseste: és a minha morada em terra, e eu disse habita-me sempre que estiveres deste lado do mar. Trazem-te até mim
os ventos brandos, os equinócios, o início de uma nova estação, a lânguida
fome. Sacia-te e eis que te fazes
demorada boca ardente, mãos-de-fogo, sexo quente, denso, profundo, acre
alimento, permanência imutável de ti em mim. Inebria-me
o teu cheiro a ferrugem dos navios, a portos perdidos do mundo, a sol
incendiando as cidades que se desvanecem no horizonte. E é do horizonte que te chamam as paisagens que só conheço das tuas histórias: dizes sonho contigo todas as noites, e partes deixando
comigo a indomável força das ondas, o mel dos poros e o azul do olhar.