Adormeço sobre o corpo vergado,
a cabeça tombando em direcção ao peito,
os lábios entreabertos, pontilhados pela
morna saliva,
as pálpebras cerradas, onde gotas de salgada
névoa cristalizam.
A respiração atravessa a garganta como um
espinho,
rosa outrora púrpura,
agora apenas venenosa,
letal ácido de lágrimas e fel.
O alabastro envelhecido da pele cede ao
tempo,
emanando o seu odor a fuligem, eterna espera,
sangue nas veias estagnado.
No colo, o caderno sem folhas,
memórias brutalmente arrancadas.
Sobre as páginas caídas no chão, vultos
negros esvoaçam,
os medos e o passado, tornados visíveis,
rodopiando no centro da sala:
o Pai feito nevoeiro, dissipando-se,
a Irmã, consecutivamente morrendo,
o amor pairando absorto, impossivelmente
longe,
e a solidão erguendo-se como um manto,
absorvendo os mortos,
os medos,
as questões,
as páginas do caderno,
a casa,
os dias,
as gélidas noites,
o tempo,
os sonhos,
o corpo adormecido.
Quando acordar talvez não seja tarde
e consiga ainda recolher do chão as folhas
escritas,
ordenar as memórias,
recordar o Pai,
perdoar a Irmã,
despir o manto,
ceder ao amor
e entender que o que sou não está nas
palavras,
mas no silêncio entre elas.