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Interrompo o sono para escrever. Na mesa-de-cabeceira, o caderno e a caneta de tinta preta aguardam pacientemente por noites assim, onde o peso que me habita o peito se dissipa apenas em palavras. A marca invisível das mãos sobre a pele é ferida que se instala, esculpindo de terrífica acidez o oco tremor do corpo. Digo que me dói, a solidão; tudo o resto são máscaras colocadas tão junto ao rosto, que chego a acreditar ser felicidade o vazio que por dentro sinto. E de vermelho pinto os lábios e a vil falsidade da minha existência, largando dias sobre dias, até ao desmoronar da construção. Da hipotética esperança de uma mão que me ampare a queda, nada sobra: sobre o tempo e até à deterioração do corpo, continuo a oferecer o leito a quem disser as correctas palavras de engano e mentira, repetindo, sucessivamente, o eterno ciclo da minha degradação. No fim, o que sou pesa-me, torna os ossos frágeis e a alma velha. Faz-me extinguir com todas as coisas que trago em mim e não são de ninguém, apenas do silêncio sepulcral que me habita.