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É Outono, querida Irmã. Outono bonito, de Novembro. O chão é de folhas esculpidas pelo tempo, a brisa surge fresca junto ao rosto, por debaixo dos cabelos. Chove, há poças transbordantes de reflexos. Há um vento forte, que me esvoaça os vestidos. As noites são longas e frias, demoradamente pontilhadas de estrelas. Esta, em que te escrevo, é denso nevoeiro. A nostalgia escorre, cristalina, pelo olho direito, sal no vermelho dos lábios. Sou feliz assim, na certeza desta tristeza de chá quente e meias de lã.  Zbigniew Preisner enche as paredes do meu quarto. Gostava que o ouvisses, de conversar contigo sobre a variação cromática entre o rio da tua casa e o mar da minha. Paro. Apercebo-me que já não sei a tua voz. A tua voz, Irmã minha, esqueci-a. Recordo, com precisão, a inclinação dos teus dedos, o desenho do teu corpo, o sorriso. O riso perdi-o também. E o sono. O meu sono. A insónia a ferver na pele, no peito escancarado, no contorno dos ossos. No mundo que trago lá dentro. É por ter sido enquanto dormia que morreste, sabes. Por, enquanto sonhava com uma qualquer fantasia de menina, tu arrancares do teu corpo o último suspirar. Respiro fundo  e abro muito os olhos. Talvez a distância das minhas pestanas à cavidade ocular te aproxime de mim. Ou o cair da chuva complete o lugar da tua voz. Talvez tu toda sejas chuva. Desde as nuvens que estudaste, até ao rio onde largámos o Pai. Outono e Primavera na memória de ti.

Sorrio.
Ouço-te a cantar lá fora.
És tão bonita, Irmã.