prólogo de coisa nenhuma
O que há de tão errado em morrer,
dizias
abruptamente sobre a noite apagada,
se ao próprio corpo devemos o descanso de
nos alojar a alma?
Recordo
que a questão me pareceu menos pertinente do que a forma como o fumo do teu
cigarro ondulava na sala vazia. Não subia, simplesmente, dissipando-se de seguida.
Havia uma espécie de dança, entre os teus dedos e o ponto exacto onde o fumo
desaparecia. A cinza acumulava-se no chão de madeira gasta mas tu, indiferente
a algo mais para além do teu pensamento, continuavas.
Bem sei que devemos chorar e temer a morte,
oh a negra e terrível morte, mas nada me traz mais serenidade do que a certeza
do fim. O sofrimento, a devastação do pensamento e da memória, isso sim, causa-me
uma imensa agonia. Agonia porque me dá nojo. Nojo! Digo nojo e repito porque é
verdade! Não é em vão que me faço acompanhar do eterno poder de decisão. É a
decisão, Flor, que cria o Homem.
Não
precisava de afastar o olhar do meu verdadeiro objecto de interesse para saber
que, dentro do casaco de veludo gasto, o teu braço se erguia em direcção ao
tecto. Nas pontas dos dedos, um frasco de prata oxidada era exposto, uma vez
mais, à tua representação sobre o declínio e a morte.
-
Sim, de nada vale temer o óbvio. A
consciência da fragilidade humana é a força da própria humanidade.
- Humanidade,
Flor? Que humanidade? A dos livros de História ou de Utopia? Estou a falar-te
do Indivíduo, não do conjunto de mente-captos que forma essa farsa que é a
sociedade!
O teu
salto repentino da cadeira fez com que a ponta do cigarro caísse no chão e se
apagasse. À minha frente, o movimento sem critério, braços e mãos esvoaçantes,
a voz saindo grave da garganta e a pele mudando de cor, fez-me perceber que
dissera algo que não devia. Indiferente à tua revolta, observei-te. No teu
rosto, caminhos sem destino tinham-se sulcado na pele. Marcas profundas
assinalavam o contorno dos olhos, a largura da testa, o lugar exacto até onde
costumavas sorrir. Não havia qualquer brilho no teu olhar, nem mesmo provocado
pelo entusiasmo do discurso repetido. Insisti na procura do homem por quem me
apaixonei anos antes, mas em vão. Estavas velho, esgotado, entregue a questões
sem resposta e devaneios. O bigode amarelado pelos cigarros constantes, a roupa
gasta, os sapatos de solas descoladas, os gestos exagerados, a ira contida;
tudo em ti me pareceu demasiado triste, avassalador. Ao longe, muito para lá do
meu pensamento, continuavas:
- No man is an Island porque não chega!
Somos ilhas muralhadas, protegidas por canhões e cercados de nós mesmos. Eu sou
a minha ilha e o meu mar. E não me venham falar de destino, que o Destino é a
aceitação do medo por parte dos fracos.
Na
altura achei ser carinho mas, entendo agora, o que senti naquele momento foi
pena. Compadeci-me de ti com a mesma intensidade com que, um dia, te amei. Sei
que dirias que o sentimento mais degradante é a pena, mais redutor da condição
humana. Gostava que entendesses que muito pouco na vida é linear. Que há algo
de fascinante na abstracção, na aceitação da dúvida e da incerteza. Claro que
para ti não havia questões por responder, tudo era claro, tão claro ao ponto de
te retirar o gosto por viver.
Entende
que não havia, em nós, mais nada para além de um fosso. Lembro-me que um dia me
disseste,
És Flor e eu sou árvore velha. Tenho raízes
no lugar de pétalas e enquanto tu vais ficando mais bela eu vou caminhando para
lá do chão.