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Os meus lábios anoitecem selados,
é tarde, demasiado tarde, para os abrir.
Do lado de fora do medo há labaredas,
monstros de cabeças várias,
um precipício maior chamado saudade.
Às vezes penso que não sou daqui,
que há mil anos nasci e me esqueci de morrer.
Há no meu corpo um cansaço de eternidade,
uma espera de cal e entranhas,
infinita e densa.
Do olho direito, sangue quente atravessa a pele,
escorre pelo rosto em direcção à boca fechada.
Como seria possível negar a fétida carcaça do homem que persiste,
do homem podre, morto, o homem que me habita a alma.
Entrego o pensamento ao delírio, como se me tocasse.
Insisto na loucura.
Adormeço.