Recordo a primeira fotografia
que tirei: tinha seis anos e uma máquina azul e amarela com um ursinho. Nesse
ano, como em todos os anos, fui acampar com as minhas Irmãs. O parque tinha um
jardim e no meio do jardim um baloiço. Não havia escorrega, nem balancé, nem
caixa de areia, mas eu não me importei porque andar de baloiço era o que mais
gostava de fazer. Apesar do mês de Verão choveu o tempo todo, estava frio e
não pude brincar no jardim. Na manhã da partida acordei mais cedo, corri até ao
baloiço e tirei uma fotografia - a primeira de todas. Assim, pensei eu, podia
andar no baloiço sempre que me apetecesse, mesmo quando chovia muito.
Depois dessa seguiram-se
outras fotografias, sempre tortas, desfocadas, com as pessoas cortadas.
Fotografei os sítios para onde me levavam a passear, as minhas Irmãs, a minha
Avó, a minha gata, os amiguinhos da escola, pedras, flores, os desenhos que
fazia. Ainda as tenho a todas guardadas numa caixa de cartão, em casa da minha
Mãe.
Com o tempo aprendi que as
fotografias não eram só imagens bonitas, que podiam ter tudo – o mundo inteiro,
a memória, a saudade – lá dentro. Aprendi que quando algo termina, ou quando
alguém se extingue, aqueles rectângulos de papel são muito do que resta. Tenho o
meu Pai em duas fotografias tipo-passe, encostadas aos livros de Al Berto e
apesar da distância, daquilo que já não existe – e que nunca existiu –
posso fazer de conta que ele está comigo. Tenho a minha Irmã, quando era feliz,
sentada no sofá da sala a fazer uma careta, a minha Avó, sempre elegantíssima,
com o seu ar sereno de quem todo o tempo para ensinar tudo o que sabe.
A máquina do ursinho
perdeu-se numa mudança de casa, mas fui tendo outras, do meu Pai, do meu Avô,
da minha Tia, umas compradas, a maior parte oferecidas. Continuei a fotografar
pela mesma razão que escrevo: para que nunca me esqueça de nada, para que um
dia possa olhar para tudo o que passou e recordar o que vivi. Mesmo que a
memória me falhe, mesmo que não saiba que aquela história é a minha. Às pessoas
que me vão tocando vou deixando pedaços deste tudo que sou - as fotografias de
que mais gosto, as palavras mais verdadeiras, ainda que tortas, desfocadas, ou
sem sentido.
A cada coisa que vivo o
coração vai ficando maior, mais aberto e sincero. E mesmo que o peito
escancarado possa parecer uma fragilidade, não me arrependo de nada: de muito
pouco vale a viagem se não se for recordando todos os baloiços, todas as
paisagens, todas as pessoas e os mais belos sentimentos que se vão encontrando
pelo caminho.