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No dia em que morri lancei-me ao mar. Na altura das ondas desfiz o corpo em branca espuma, em total existência de metáfora e maresia. Recordei a infância, erva fresca e quatro irmãs na sombra de uma casa. Não havia tempo nem conhecimento da saudade. Havia amoras silvestres manchando os cantos da boca e o riso mais puro ecoando por entre as árvores. Pai morto ainda vivo na memória da inocência.
Queria poder dizer o mundo, o coração, inteiro, no interior das palavras.
O meu corpo movendo-se no respirar das vagas, carcaça translúcida de veias privadas de sangue. Olhei o céu e vi o rosto dos que amo cravado nas estrelas, uma constelação feita dos que há muito partiram. Deixei que a água me inundasse os pulmões, os ossos cedendo na boca irrequieta dos peixes. 
Tantas vezes chorei sangue nesta praia de rochas, a memória humedecida pela salgada língua do mar. Retorno para recolher o meu corpo, de todas as vezes que aqui me perco. Pela manhã serei inteira, a pele sem a marca da permanência na água, os cabelos secos, cheirando a camomila em vez de sal.
Adornarei os lábios com um sorriso
e ninguém saberá que morri.