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tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua* 

e o mar inteiro o reflexo do teu olhar.
perguntei-te, um dia, se o sal na tua pele era o mesmo do oceano.
disseste-te um peixe, ou um marinheiro tão perto de naufragar.
o frio junto aos ossos recorda-me que tudo não passou de um devaneio
que os teus olhos não brilham,
que o teu sabor é o comum dos homens,
que não há algas nos teus cabelos, nem o eco das ondas no teu peito.
tão pouco existe a proximidade do luar sobre a praia,
a intimidade das rochas erguidas na areia,
o silêncio dos pescadores.
no lugar das mãos, um fosso
em vez de um beijo, a distância brutal de uma obrigação cumprida.
os meus dedos nada trouxeram do teu corpo,
não houve cheiro nem gemido,
abraço ou respirar.
retomo os sonhos, mas retiro deles o rosto:
a memória deixou de insistir no teu nome e os dias levaram-te para longe de mim.

*Al Berto, excerto de Carta da Flor do Sol