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Vou contar-te um segredo, trovoada abrupta situada, precisamente, no lugar mais denso do coração. Se lhe desse um nome seria desejo. Numa noite de muita chuva e cama vazia ousei chamar-lhe amor, mas digo-te, o frio nos ossos faz com que se acredite em coisas que não são verdade; que estão longe, muito longe, da verdade.
Soube-lhe o corpo de cor: as proporções exactas de cada músculo, o aveludado da pele, a intensidade do cheiro. O brilho dos olhos e as minhas mãos agarrando o seu cabelo. Desconhecia o  nome, o filme favorito, a forma como ri ou os medos.  Nada disso importa quando se permite ao corpo um abrigo passageiro. Ao amante de uma noite contam-se as mentiras mais belas. Finge-se uma cumplicidade inventada no prolongar do olhar, num passar mais terno dos dedos pelo rosto, na voz rouca e doce de um gemido. Cede-se os lábios em troca de um beijo, as pernas entreabertas por um tocar mais profundo, o pescoço por um rasto de morna saliva. O corpo nu reveste-se de uma sinceridade que me comove: exposto, sem artifícios de roupas ou maquilhagens, total perante o olhar nele depositado. Ouve-se no silêncio das palavras não ditas, aqui me dou a ti, para que nos possamos amar e sentir até que desapareça do céu a última estrela. Há no imaginar do desejo uma realização prévia desse mesmo desejo, como um consumar absoluto e autêntico do sentir interior; as pontas dos dedos tecendo sonhos de pele unida pelo salgado suor da paixão, projectando cada gesto demoradamente cravado na memória.
Passado um tempo demasiado incerto, tudo se esquece; perde-se o toque, o sabor dos beijos, o ofegar da respiração. Recorda-se o conforto bom do lençol morno, o sono a chegar com os primeiros sinais da manhã...e o mar inteiro no olhar.