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Não acredito nas mãos de Deus.
Concedo-me o direito de ser eu a escolher o dia, hora e razão da minha morte. Deixo a decadência para a poesia, o corpo castigado para as palavras. Na minha carne não haverá sofrimento levado até à exaustão. E sim, sei que há coisas impossíveis de prever. Mas, para lá delas, há uma paz imensa ao pensar que, se quiser, daqui a 50 anos posso organizar os pertences em caixas etiquetadas e as memórias no coração, passar pelos lugares importantes, abraçar a família e os amigos e refugiar-me numa casa antiga erguida à beira-mar; pôr a minha música preferida a tocar - baixinho, para que não deixasse de ouvir as ondas - recostar-me e, com o final do dia, partir. Sem hospitais, nem agulhas, nem merdas dentro das veias, nem sufoco na garganta, nem coisas que ficaram por dizer. 
Depois bastava irem buscar-me, cremarem-me o corpo e, com as palavras de Al Berto, deitarem-me ao mar.