Aqui, onde a noite se torna infinita, conto as falhas
da memória. Seria precisa a eternidade do tempo para recordar a
branda quietude das constelações, o esplendor do universo desenhado no tecto da
casa antiga, o oceano cantando ao longe as histórias do seu negro fundo.
No caderno de folhas gastas desenho o contorno da
minha pele cansada; a cabeça pendendo do tronco nu e a vergonha que não sinto
ao me saber exposta. O rosto perdeu a expressão no passar dos anos, uma máscara
eficazmente largada sobre a estrutura óssea.
Ouço o vento do lado de fora da janela, o ladrar dos
cães irrompendo do silêncio da calma nocturna. Olho os pulsos, recordo as
palavras que neles tatuei: amar, amar-te e a esperança toda do mundo na concretização
desse amor.
Um fino fio de seda azul cose-me o contorno dos olhos. Adormeço na distância do teu corpo, os sonhos agora largados na calma água do
rio.