era um quadro tons de morte, aquele quarto no terceiro andar.
passou um ano. nada mudou. a morte sobe negra pelo corpo.
a morte trava a passagem do ar na garganta.
a morte são mil bestas desfazendo o peito.
a morte escorre por entre os dedos como água.
recosto-me e recordo todos quanto a morte me levou:
aceno ao longe ao pai que mal conheci, à avó que perpetuo no meu abraço e a ti,
que escolheste a incerta obscuridade à vida.
tenho aprendido a não pensar e assim afastar de mim o peso do mundo.
sou cada vez mais pedra, mais gelo, mais vazio,
sou cada vez mais voz silenciada pelo tempo.
quando alguém morre, penso, nunca morre só.
morrem os pais com os filhos, os filhos desfazem-se na sombra dos pais, sucumbem as irmãs à memória de outra irmã, e até os netos têm na sua vida a continuidade da morte dos avós.
sucedem-se os dias e as ondas rebentam na praia uma e outra vez.
há flores que nascem nas árvores e cães moribundos na berma da estrada.
há a oblíqua continuidade de todas as coisas e, ainda assim, sinto-me infinitamente só.