há-de passar por mim o crepúsculo desta cidade adormecida, que percorro em círculos concêntricos no desdenhar da alma.
escrevo nada e nada acontece. e os dias são nada e a cidade vazia.
com as unhas triangularmente esculpidas esgravato o peito de um qualquer transeunte,cego pelo imenso reflexo da vida. aí me instalo e lhe devoro as entranhas, cobrindo com branca cal os pedaços que não me saciam. uma estreita linha de fumo negro atravessa as pálpebras do homem que me transporta – homem-nada, homem-lixo – devoro o fumo com as narinas muito abertas e o homem sucumbe num sufoco. ah, homenzinho idiota, que me tomas por parasita, a mim, que no teu peito escancarado deixei escorrer para o lado de fora das entranhas a mortal doença de que padecem os homens como tu: já não te ofusca o reflexo do mundo? porque sorris se o teu corpo escorre sangue? olha para ti, por uma vez que seja move o pescoço e olha para ti. é bonito, não é? aonde está o teu corpo, homem-lixo? ou és só pescoço muito hirto encimado por uma estúpida cabeça oca? pega numa corda e amarra-a ao pescoço. quero-te ver com o corpo pendente num qualquer candeeiro de rua . e a ti, e a ti também: até a cidade amanhecer repleta de carcaças secas balouçando nos candeeiros . e aí sim, vil criatura, poderei ter nas ruas o lar que procuro, sem ter que me cruzar com o teu amarelado padecer.