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hoje sentei-me a pensar no futuro: imaginei-me daqui a 22 anos, tantos como aqueles que já vivi. não encontrei família, nem amigos, nem casa; soube uma viagem sem retorno pelos lugares mais impossíveis do globo. a voz seca de não falar, falar pouco, quase nada e a ponta dos dedos tingida pelo passar amarelado das folhas de papel. no olhar cansado soube-me mais velha do que a idade que me somavam os anos: os olhos vazios diziam vi tudo, as lágrimas esgotadas, já não sinto nada. as roupas, sempre negras, escondiam o corpo tatuado de palavras. palavras soltas como vento, paixão, água, morte, alcatrão, vazio, chegada, lisboa, mãos, banco, silêncio, paisagem, amor, sombra, impulso, tráfego, casa, mãe, crença, solidão, memória...