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o louco néon e as 20 catedrais


há um passar de horas sobre o cais: 
avança o tempo no cacilheiro e eleva-se a ondulação do rio; 
sobrevoam pássaros sobre a espessa medula do alcatrão;
corro as estradas atrás do reflexo de um ponto de luz,
encontro clareiras nas ruas que se estendem assim, solitárias
e o vento rasga os ossos e os ossos afundam-se no rio.
dizem que há uma cidade que se ergue paralela a este murmúrio de cabos de eléctrico 
e nela os seus habitantes se recolhem e se reconhecem,
sentados no ténue nevoeiro da outra margem da terra.
um assobio corta o espaço e um homem caminha;
diz-me um poema com três palavras, três palavras apenas que contêm o reflexo deste lugar;
e os corpos esvoaçam e pairam no ocre do céu 
e o translúcido plástico do saco deixado numa qualquer esquina 
envolve e prende os corpos que dentro dele desaparecem.
há um louco na cidade e as suas palavras são néons gastos que queimam e ferem a vista
e esfumaçam a distorcida perspectiva das coisas.
e o louco avança sobre a aparente calma de final de dia
verte da boca o espesso fluído da vida, quente, fétido, corrosivo
e assim morre e morre a cidade e morrem as pessoas sobre a praça.
gaivotas de olhos muito negros rasgam com os seus bicos aguçados as cabeças deixadas ao ocaso
e às vinte horas certas, desfazem o delírio os sinos da sé. 
não os ouço: o corpo é plástico e a alma do louco apoderou-se de mim.