dos abismos de lisboa
as coisas indizíveis têm o peso de um sopro
e do coração que levo nas mãos sobra aragem.
atravesso a rua.
escuto os passos.
predisponho o corpo ao sexo e às coisas impossíveis.
passo os dedos sobre pele:
sinto feridas e fome e febre.
dela escorri a fétida presença da morte
e assim atravesso a orla da escuridão.
há um poço na continuação da sombra,
mergulho as mãos,
lavo a cara enegrecida pelo corvo solitário.
houve um tempo em que escutava a madrugada
e sabia no orvalho as folhas que amanheciam.
era a correcta expressão das coisas sem dono,
assim, tão próximas da sua origem.
agora escuto o mar e cego o brilho às estrelas:
sou corpo que flutua por entre a ondulação.