28/05/2018
O coração pede mundo: inteiro, absoluto, total. Pede descoberta e aprendizagem, bondade e ternura. Pede pessoas para lá de egos, significado para lá de virtualidade, humanidade.
Casa vazia, a porta entreaberta: três caixas de cartão e silêncio, é tudo, absolutamente tudo quanto trago em mim.
21/05/2023
Cinco anos passaram e parti. Deixei a casa, essa rotina de fel, coloquei a mochila às costas e parti. Fui de lugar em lugar, cidade em cidade, montanha em montanha. Conheci pessoas maravilhosas, que ainda trago em mim, amigos improváveis de lugares longínquos, unidos por uma sede de partilha e autenticidade. Apaixonei-me por todos os homens e mulheres que beijei, segui caminho, regressei e voltei a partir.
Depois, sem pré-aviso, dei por mim a ir ficando num lugar onde fui por acaso. E a ver os dias passarem e eu a ficar. Os meses somados em anos, e eu numa cidade que me tirou o pouco chão que ainda pisava. A ansiedade controlada descontrolou-se, os demónios adormecidos acordaram, e até a necessidade de beber até perder os sentidos voltou a tomar conta de mim. Muitos foram os dias em que não saí da cama, do quarto mergulhado em penumbra e angústia, devorada pelo desejo de querer dormir e não acordar mais. Num momento de maior lucidez, consegui procurar ajuda, e a ajuda chegou pela mão de alguém com quem tenho trabalhado toda a dor. Saí daquela cidade e voltei a "casa", ainda que não tivesse casa para voltar.
Desde que parti deixei de escrever, de fotografar, de desenhar. Desde que parti a Mãe uniu-se ao pai, à Avó e à Irmã. Perdi as memórias, por vezes os sentidos. Desde que parti, parti-me, perdi-me, ainda não me encontrei - mas para lá caminho - entre escombros e penumbra.