Sento-me no denso negrume desta noite silenciosa. Bebo e fumo para adormecer a dor. Para, eventualmente, adormecer o corpo. Ao longe, sobre o mar, uma tempestade eléctrica rasga o céu com intermitentes feixes de luz. À minha frente, ergue-se a igreja Sagrada, em construção há dois séculos.
Também eu sigo em construção, há trinta e cinco anos. E sinto-me mais em ruínas do que nunca. Tenho aprendido como tudo em mim é uma resposta à dor dos primeiros anos de vida. Uma reacção àquela infância de abandono, que passei sozinha sentindo tudo demasiado. Sendo demasiado.
Até que deixei de ser eu mesma para passar a ser dos outros: as expectativas dos outros, os medos dos outros, a dor profunda carregada pelos outros e levada em ombros por mim também.
Nesta cidade que é de milhares de pessoas sem nome, sinto-me profundamente só. E estar comigo é mergulhar cada vez mais profundamente nessa solidão. Procuro a companhia de um qualquer alguém para mitigar a dor, mas todos vimos carregados de tormentas. Procuro-me e encontro vazio, o grito silencioso da minha existência perturba-me. A cada dia tento algo e estou cansada de tentar. E quanto mais tento, mais falso e forçado me parece este existir.
Resisto à necessidade de fugir, ao desejo profundo de continuar sem rumo, pairando por um mundo com o qual não me identifico.