– Pode distinguir-se o que é muito belo, depois.
Mas é necessário?
– Para mim é. Não quero dizer que o seja para as outras pessoas.
Mas magoa, a sordidez?
– Claro que magoa. É óbvio que magoa. Só magoa. E, se calhar, tudo isso é inútil, a sordidez. Se calhar, essas experiências são completamente inúteis. Mas, será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive?...
Provavelmente também há outras vias…
– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunário não há lugar para a criação de uma nova moral.
Atrai, essa vertigem?
– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
excerto da entrevista de Francisco José Viegas a Al Berto
Revista Ler nº 5 . 1989