Sinto uma profunda tristeza. E dizê-lo implica tanta coragem quanto senti-lo, pois há muito que nos foi negado o direito de ser tristes. Por todo o lado, uma manifestação globalizada de aparente leveza e dormente euforia manipulam o sentir. Deixa de haver lugar para a dor individual, para o luto, para o denso e lento tempo durante o qual se faz por respirar para lá do peso que pressiona o peito. E é nesse tempo, que deveria ser sagrado, que se choram todas as mágoas e se liberta toda a revolta: para que nada nos retalhe por dentro.
Sei, repetidamente, que ninguém nos magoa como quem nos ama. A navalha cravada por aqueles com quem partilhamos a existência será sempre mais afiada e a chaga mais profunda. Tenho o corpo coberto de cicatrizes invisíveis, deixadas por pessoas que já pouco existem, umas porque escolheram a morte, outras porque o medo de solidão as fez ceder a uma abstracta forma de vida.
A caminho dos 30 anos, continua a surpreender-me o modo como nos relacionamos uns com os outros, como se banalizou o egoísmo, o sentir que acompanhar as partilhas virtuais é conhecer e, consequentemente, ficar apto para julgar, como os sentimentos se tornaram avulsos e as relações passageiras - tenham elas como base a amizade, a paixão, a atracção física ou intelectual. Surpreende-me como nada é eterno: não para que dure para sempre, mas para que haja total entrega, devoção e respeito. Um dia, um amigo que fiz numa cidade gelada disse-me que, no seu país, as pessoas não desistiam umas das outras. Que havia uma dedicação profunda à construção de uma relação com o outro, e uma consciência total do trabalho que essa construção - como qualquer outra - implicava. Perguntei-lhe em que assentava essa postura generalizada. Numa palavra, respondeu-me: fé. Fé como "entrega total do espírito àquilo que se considera verdadeiro", fé como existência completa, total e, por isso, honesta e verdadeira. Nessa conversa aprendi coisas que jamais esquecerei, incluindo a importância da disponibilidade para o diálogo.
No meio desta invasão de imagens e informação rápida, esquecem-nos que há, no uso da palavra, a capacidade imensa de dissipar equívocos. Que é através dela que se retira, da ideia que se tem do outro, o que é afinal a sua essência. Tantas lutas interiores a que nos sujeitamos, e nas quais arrastamos os outros, seriam facilmente resolvidas com um bom café e uma excelente conversa.
No meio desta invasão de imagens e informação rápida, esquecem-nos que há, no uso da palavra, a capacidade imensa de dissipar equívocos. Que é através dela que se retira, da ideia que se tem do outro, o que é afinal a sua essência. Tantas lutas interiores a que nos sujeitamos, e nas quais arrastamos os outros, seriam facilmente resolvidas com um bom café e uma excelente conversa.