Seria
tão mais fácil escrever com outro nome. Fingir que era Margarida, Beatriz, ou
até João. Camuflar tudo o que digo com o uso hipócrita da terceira pessoa.
Dizer Helena olhou o mar e soube, no
barco atracado ao largo da costa, a presença do marinheiro que nunca esqueceu.
Quis largas as malas e lançar-se à água. Nadaria até desfalecer, se necessário,
para ir ter com ele. Dir-lhe-ia que o amava, que sempre o amou, que precisava
dos seus olhos azuis e corpo de sal. Ele responderia que não deixara de pensar nela, que lhe
escrevera cartas que nunca tivera coragem de enviar. Trocariam beijos na proa
do navio, promessas de amor eterno, fugiriam num bote para destino incerto.
Ao invés das ondas, o corpo de Helena
debateu-se apenas com um imenso aperto no lugar do coração. Virou as costas e
caminhou em direcção à cidade. Deambulou durante toda a tarde. Fumou muito,
bebeu vinho de uma garrafa emprestada, chorou. Ao princípio da noite, deu por
si na rua do marinheiro, um lugar que conhecia de há demasiado tempo. Caminhou
até à porta do prédio, tocou à campainha, ouviu a voz dele perguntar quem era.
Gelou. Ele repetiu. Ela fugiu.
Correu muito, sem nunca olhar para trás. Ao
chegar a casa tomou um longo banho, deitou-se sem comer, adormeceu. Se tivesse
acordado na manhã seguinte, teria visto a mensagem do marinheiro: “Sei
que foste tu.”