como miragens que se escapam,
folhas que esvoaçam de por entre os dedos e flutuam,
sem rumo,
no leito de um rio seco.
Há paisagens que se deformam ainda antes de se formarem,
palavras que não encontram,
jamais,
as letras que as definem.
Há caminhadas que de tão longínquas perdem os seus passos
e os espaços por entre os passos
e a memória dos espaços por entre os passos.
Confino a minha existência à solidão,
como se num manto infinito tecesse um padrão a linha invisível,
que só eu vejo,
às vezes.
Sinto o tempo como quem afunda os dedos num saco de areia,
procurando o fim que não chega,
enquanto deixo o meu braço ser lentamente absorvido para dentro do saco.
E o saco de areia do tempo nunca acaba,
e o saco de areia do tempo leva o meu corpo,
mas o saco de areia do tempo nunca quer a minha alma.
E é por isso que mesmo sem corpo carrego o pesadíssimo fardo da alma que sustento
em mim,
insustentavelmente,
pintando de cores garridas telas que vejo sempre brancas,
que podiam conter nelas as mais belas cores que a natureza gerou,
as que o homem criou,
mas ainda assim,
para mim,
estão sempre brancas.
E é nesse branco leitoso de princípio de dia que me encontro,
agora,
diametralmente oposta a tudo aquilo que almejo sentir.
Perdi-me a meio caminho entre a realidade e a miragem,
ou então foi a miragem que me levou a crer que havia uma realidade,
ou então foi a realidade que se apoderou da miragem,
e a tela do saco de areia do tempo,
e o saco de areia do tempo espalhou-se sobre a tela
e afinal a tela era o saco de areia que nem areia tinha e muito menos o tempo.
Porque afinal não existe nada,
nem sequer a miragem.
Nada.
E eu flutuo,
algures,
no leito de um rio seco.