Aprisionei a tua memória num rectângulo 10x15. Nele sobrevives, eventualmente, sempre que em ti pouso o olhar. Na bidimensionalidade do teu rosto, o tormento tóxico de uma passado fictício. Contigo comecei a caminhar rente ao abismo, tão perto de cair, desconhecendo ainda que, por vezes, a queda nos liberta de todas as amarras, faz com que seja mais fácil existir. O teu corpo, o cheiro dele emanado, o suave arrastar da tua respiração: tudo isso se esgota e dissipa no tempo.
Hoje, já muito pouco me pesa, do passado. Aqui sentada nesta casa vazia descobri como me é possível viver sem ti. Atrai-me agora o salto, o voo desenfreado, as asas de sal nas minhas costas esculpidas. E se já não cedo ao engano da tua pele junto à minha, é porque aprendi a distinguir a realidade da ilusão.
Da mesma forma que o que nos prende nos mata, a liberdade absoluta faz-me pairar longe do que, um dia, me feria. As escaras da pele, do coração e da alma acabam sempre por sarar.
Solto a guilhotina da saudade sobre os sais de prata da tua fotografia, liberto-te e liberto-me de ti. Amanhã, ou ainda hoje, talvez, preparo-me para recomeçar.