Densa é a noite. Longos caminhos negros, tecidos
como cabelos no manto oculto da madrugada. Estrelas mortas brilham na escuridão
do céu, morcegos gritam, esvoaçando rente à janela. O ar, ainda quente,
deposita-se derretido no contorno das coisas: tudo perdura e, no entanto,
quanto do que vejo existe?
Conto as horas que faltam para parar de fingir que
adormeço, o tempo demasiado lento para a impaciência da minha insónia. Nego-me
o sono por temer o sonho. Essa loucura, bela de tão dolorosa, ácido fel. No
interior dos olhos fechados, homens são como marés, mãos salgadas na pele nua,
onda rebentando inteira, enchendo as entranhas.
A distância toca a pele como um louco: tenebrosa língua, veneno escorrendo à tona do corpo.
Caminhamos sem rede, suspensos, pé ante pé num fio
de seda. A respiração nocturna, tão só, aproxima-nos da mortal queda. A razão
cria-se para a mente quando o corpo a nega. As palavras, feitas ousadia, toldam
a memória, tudo é mais intenso na distância forçada. Quero dizer volta, detonar as amarras, quebrar o
frágil vidro da redoma do meu corpo. Pedir-te que me tomes inteira nos teus
braços, impregnar-me de ti.
Fecho os olhos para negar a demência. Sinto o teu
cheiro. E é tudo quanto trago em mim.