Dois passos.
O quarto vazio. Paredes demasiado brancas.
A janela ao fundo, o reflexo das árvores, um
rectângulo de sombra.
Olhar em volta. Nada.
Brisa.
Um passo. O centro do quarto.
Aqui costumava estar a cama.
Deitar no chão, barriga para cima, braços abertos.
Nasci e morri nesta cama, às vezes no mesmo dia, outras com anos
de diferença.
Olhar o tecto. Ler o que lá foi sendo
escrito:
hoje o mundo acordou vestido de mansidão e eu
de escárnio
para quê ficar se tudo em mim acaba?
outono, lava-almas sazonal
a insónia levou-me à loucura, essa puta vadia
o
abismo não encerra o eco, todos os gritos terminam no céu
Achar que nada mudou.
Que é demasiado tarde num tempo demasiado
lento.
Querer desistir. Deitar de lado na cama invisível.
Ver as árvores projectadas na parede.
Dói-me o corpo.
Fechar os olhos.
Sentir o vento que abana as árvores tocar a
pele.
Fechar os olhos.
É agora.
Voltar a morrer.