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Querida irmã,

“escrevo-te a sentir tudo isto”: o coração batendo entre as mãos, a garganta ardente, o sorriso, o corpo.
Esperei que o tempo largasse as amarras da dor e, para lá da montanha mais alta, esculpisse a memória: nesse lugar tão longe onde o olhar não queima o sentir e a brisa passa doce por entre os cabelos. Esperei a claridade das madrugadas,  a voz de Elis Regina  calma sobre a noite.
Hoje, queria dizer-te todas as coisas: explicar-te a altura das árvores e o voo das borboletas; oferecer-te um búzio extensão do mar; contar-te as estrelas. Deixei de sentir a tua ausência como partida, dois anos volvidos anuncio a tua chegada. Sei-te presente nas nuvens que contornam o céu, nos livros de histórias sobre casas, meninas à janela, especiarias; reconheço-te nas plantas e no cheiro a rosmaninho, blusas floridas e gargalhadas ecoando dentro do peito. No riso das crianças que são tuas. Ouso dizer que te perdoo, dou-te a mão e afasto o medo que sentiste. Digo-te que te amo. Que o sol sempre brilhou mais belo junto ao teu rosto. Que a tua existência é eterna no esplendor do universo.
Somos quatro. Seremos sempre quatro. Nas nossas mãos, o teu toque será linho estendido ao vento e água fresca, veio de carvalho amadurecido pelo tempo.
Na ausência do teu corpo, minha irmã, no meu coração ergo-te o mundo.