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tenho uma caixa de cartão repleta de fotografias antigas, arrumadas meticulosamente em pequenos álbuns, com data e assunto.

têm tanto de belo como de doloroso, estas fotografias; são antigas não pelo tempo em que foram tiradas, mas pelo tudo que mudou.

revê-las é como ver o passado reflectido num espelho quebrado, e trespassar a carne, verter o sangue, extinguir o próprio corpo.

não me importo com as paisagens, uma imagem basta para as tornar eternas; o que jamais perdurará sobre um fundo de papel mate são as pessoas.
as minhas pessoas.
as minhas pessoas que já só existem dentro da caixa de cartão.

e dentro dela nós rimos, e brincamos, e somos felizes e completos na inocência da vida.
somos tantos,
somos todos,
são sombras.

do lado de fora da caixa, em fotografias só existo eu. não porque queira, apenas porque dói demasiado contar os rostos que faltam.