229


(desfeito,
no início)

desconhecia ainda que todas as coisas começavam assim, minutos antes do amanhecer.
o corpo, mole da noite passada em claro, reage à leve brisa; a pele retrai-se na sua dimensão microscópica, enquanto o peito se debate num respirar profundo. ouço o mar, para lá da parede esbranquiçada, sem me recordar da última vez que o vi. às coisas outrora belas acenei há muito o último adeus.
ao meu lado, dormes indiferente à agitação nocturna. os cabelos negros caem-te sobre o rosto, desenhado na expressão de imensa tranquilidade. observo-te, mas nem assim me recordo do teu nome.
não importa, penso, não és mais meu por saber quem és.
aos vultos que nos rodeiam, chega agora o primeiro rasto de luz: há uma mesa sob a janela e a cadeira repleta de folhas em branco; há uma porta entreaberta, a alcatifa que cobre o chão gasta pelo tempo; há uma lâmpada pendendo do tecto e esta cama imunda que nos devora o corpo. as paredes nuas, a roupa amontoada a um canto, garrafas partidas espalhadas pelo quarto e, no vidro da janela, a fotografia.
respiro fundo, acendo um cigarro, demoro-me  na contemplação das sombras: sorrio por saber ser esta a imagem que verei antes de morrer.