(desfeito,
no início)
desconhecia ainda que todas as coisas começavam assim, minutos antes do amanhecer.
o corpo, mole da noite passada em claro, reage à leve brisa; a pele retrai-se na sua dimensão microscópica, enquanto o peito se debate num respirar profundo. ouço o mar, para lá da parede esbranquiçada, sem me recordar da última vez que o vi. às coisas outrora belas acenei há muito o último adeus.
ao meu lado, dormes indiferente à agitação nocturna. os cabelos negros caem-te sobre o rosto, desenhado na expressão de imensa tranquilidade. observo-te, mas nem assim me recordo do teu nome.
não importa, penso, não és mais meu por saber quem és.
não importa, penso, não és mais meu por saber quem és.
aos vultos que nos rodeiam, chega agora o primeiro rasto de luz: há uma mesa sob a janela e a cadeira repleta de folhas em branco; há uma porta entreaberta, a alcatifa que cobre o chão gasta pelo tempo; há uma lâmpada pendendo do tecto e esta cama imunda que nos devora o corpo. as paredes nuas, a roupa amontoada a um canto, garrafas partidas espalhadas pelo quarto e, no vidro da janela, a fotografia.
respiro fundo, acendo um cigarro, demoro-me na contemplação das sombras: sorrio por saber ser esta a imagem que verei antes de morrer.