o corpo avança.
um passo. dois passos.
o infinito.
escureço a caminhada num vão de escada.
dou o corpo à vida.
nu
cego
seco
dou o corpo à vida.
é uma carcaça.
e os dedos são ondas atravessando o mar.
sou uma carcaça.
dorme um homem sobre o meu peito.
um homem inconstante,
permanentemente suportado pelo meu peito.
e eu corro,
e grito,
e do peito faço chamas que queimam o topo da alma.
o homem não acorda.
o corpo estremece embrutecido.
está magoado,
tem feridas que não saram.
tem frio.
tenho frio.
e esta dormência que não me larga nunca.
podia ser qualquer coisa.
acordo todos os dias a pensar que podia ser qualquer coisa.
uma árvore,
um rato,
um feixe de luz atravessando a janela quebrada de uma casa vazia.
podia ser a casa vazia.
ou o vazio da casa.
o vazio do mundo.
o meu vazio.
meu.
eu.
poderia,
eventualmente,
ser eu.
já não sei para onde escorre a pele.
perdi-me na minha própria caminhada.
larguei o corpo na berma da estrada.
já não sou nua porque já não tenho corpo.
e o homem que dorme sobre o meu peito repousa agora nos meus ossos.
como um vírus.
ou então como parte de mim.
como se a indefinição de todas as coisas
fizesse parte de mim.
é tudo eu menos aquilo que sou.
sou tudo menos eu.
sou o homem que dorme sobre o peito.
o homem que dorme e não acorda.
o homem que dorme e não acorda nunca.
o homem que não existe.
sou tudo aquilo que não existe.