201

o corpo avança.
um passo. dois passos.

o infinito.

escureço a caminhada num vão de escada.
dou o corpo à vida.

nu
cego
seco

dou o corpo à vida.

é uma carcaça.
e os dedos são ondas atravessando o mar.

sou uma carcaça.

dorme um homem sobre o meu peito.

um homem inconstante,

permanentemente suportado pelo meu peito.

e eu corro,
e grito,
e do peito faço chamas que queimam o topo da alma.

o homem não acorda.

o corpo estremece embrutecido.

está magoado,

tem feridas que não saram.

tem frio.
tenho frio.

e esta dormência que não me larga nunca.

podia ser qualquer coisa.
acordo todos os dias a pensar que podia ser qualquer coisa.

uma árvore,
um rato,
um feixe de luz atravessando a janela quebrada de uma casa vazia.

podia ser a casa vazia.
ou o vazio da casa.
o vazio do mundo.
o meu vazio.

meu.

eu.

poderia,
eventualmente,
ser eu.

já não sei para onde escorre a pele.

perdi-me na minha própria caminhada.

larguei o corpo na berma da estrada.

já não sou nua porque já não tenho corpo.

e o homem que dorme sobre o meu peito repousa agora nos meus ossos.
como um vírus.
ou então como parte de mim.

como se a indefinição de todas as coisas

fizesse parte de mim.

é tudo eu menos aquilo que sou.
sou tudo menos eu.

sou o homem que dorme sobre o peito.

o homem que dorme e não acorda.

o homem que dorme e não acorda nunca.

o homem que não existe.

sou tudo aquilo que não existe.