88

ode à enxaqueca#1


TUM
TUM
TUM
TUM

Na minha cabeça

TUM PAPAPAPARARAPAPA TUM
PA PA PUM

Mais fundo

TUTUTUTUTUTUTUTUTUTUM

Até ao fundo

Do corpo

Da alma

Ah, a alma

TUMTUMPUM martela-me a alma

Como um prego a uma parede

PAPAPA

Marretada

Pancada seca

e aí o ECO

chegam-me os murmúrios do eco
como um rio que sobe
só sobe,
não desce

e o eco ecoa

oa
oa
oa
OA
OA
OA
PUM
PUM
PUM

E repete
O eco repete e atordoa os sentidos
É como uma cantiga que não para

PAPARA PAPARA

PAPARA
O eco é um mantra de murmúrios
Que essa essa essa essa
essa
essa
essa

NÃO CESSA!

E PUMPUMPUM

E PAPAPA

E UMA CHAPADA NA CARA E NOS OUVIDOS E NA TESTA E BEM DENTRO DA CABEÇA

E o comboio avança e o rio só sobe

E o comboio avança no rio

E o rio sobe o comboio

e valha-me nossa senhora que está um rio no comboio

acudam bombeiros,

acuda santo antoninho,

acuda um deus que acuda que está um rio no comboio




mas afinal era mentira
que ira me provoca a mentira

não havia rio

não havia comboio

não havia sequer martelo


parou?

Será que parou?

E os pregos?

Alguém viu os pregos?





Não.
Parece que por agora parou.