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A insónia é um veneno que mata docemente, desde as pálpebras que não cerram até ao frio dormente que se instala por debaixo da pele.
Na noite, as coisas tomam a dimensão aumentada de uma sombra que se projecta até ao infinito. Tudo é mais intenso, mais claro ou mais cruel. Para lá dos noctívagos, a insónia faz nostálgicos, artesãos ou amantes; sonhadores tocando a loucura; loucos acreditando na verdade dos sonhos...todos, em cada um de nós.

Juntemo-nos numa casa abandonada, dancemos juntos o ruído desta cidade adormecida. O mundo inteiro cabendo na palma das mãos de quem habita o silêncio fictício da calma nocturna. Tornemo-nos amantes de uma estrela ou uns dos outros, tanto faz. No brilho apagado das ruas, faremos da insónia o nosso prazer secreto. Absurdo. Mortal.