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Estou fora de moda. Nasci errada no meu
tempo; neste, ou em qualquer outro onde pudesse ter vivido. O meu ar é antigo,
os meus sonhos estão gastos, cobertos de pó. As mulheres querem-se imensas, com a
pele beijada pelo sol, leves, vestidas de cores suaves, de riso solto e agenda
preenchida. A minha figura é pequena, a pele lívida, cubro-me de preto,
cinzento e vermelho, tenho uma tendência mortal para a solidão. Suspiro por
coisas que já quase não existem: cartas deixadas na caixa do correio, filmes a
preto e branco, flores oferecidas em segredo, poesia ciciada ao ouvido numa
tarde de nevoeiro, palavras escritas à mão, máquinas fotográficas em metal,
namoros sem pressa, amores imensos que durem para sempre, vestidos pelo joelho,
serões calmos de conversas entre amigos, música em discos de vinil... Falta-me
a graciosidade de uma mulher dos anos 30, a volúpia da década de 40 ou dedicação
dos anos 50. Falta-me um tempo onde
fizesse sentido existir.