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Há uma ironia de que só agora me apercebo: não é segredo que teço o meu caminho com o fino fio da solidão, achando sempre que estou melhor sozinha, que me ergo e me movo assim, em dias e noites esculpidos de mim para mim. No entanto, quis o bater do coração que tivesse sempre alguém a meu lado. Desde paixões pequeninas que se esgotam no princípio do dia, até amores impossíveis que acreditei serem para toda a vida. Nos últimos dez anos, sempre. Pela primeira vez desde que me recordo, sou apenas eu. Começo este novo ano a bordo de uma liberdade que desconheço, que se ergue nova diante mim. Sinto frio nas mãos, o corpo desamparado, não sei o que fazer aos braços não tendo uma cintura que abraçar, mas ainda assim: estou feliz. Ou ansiosa por saber o mundo desta forma, com o ar inteiro entre os dedos, o coração leve, os sonhos sem urgência de existirem. E embora saiba que tenho no amor a esperança da minha salvação, para já estou bem assim.