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Sento-me junto ao mar, observo as ondas. É de noite, a praia estende-se finita sob o brilho das estrelas. Ao longe, pássaros de penas branca esvoaçam por entre as rochas.
Aguardo: a areia fria acolhe-me o interior do corpo; os ossos estalam como vidro velho, desfazem-se sob a brisa. Esperarei mais vinte e quatro anos, aqui, diante deste cemitério salgado de cadáveres, de navios, de sonhos. O fundo nocturno do oceano chama-me, a escuridão absoluta. Talvez nessa morada adiada me possa recolher ao interior do meu silêncio, à amarga quietude da solidão e da loucura. Encontrarei homens que não voltaram a casa, marinheiros feitos algas balouçando na corrente. Deixarei que os peixes me comam os olhos, a pele, o lugar do coração. Serei  murmúrio por entre as vagas, grito lançado ao céu em noites de tempestade. Onde o rio toca o mar saberei o meu Pai, abraçar-nos-emos no suspirar salgado da memória. A liberdade absoluta de não me saber terrena.

O frio húmido gela-me as lágrimas rente ao rosto. A noite cobre-se agora de denso nevoeiro. Levanto-me, sacudo a areia do vestido. Sorrio perante a imensidão da minha casa futura: até breve